quarta-feira, 13 de junho de 2012

Saramaguiando ou A Alegoria da Sala de Espera

Entre praguejo e acalorados elogios, me pega na madrugada deste belo dia para irradiar minha alegria com este belo texto. Que todo mundo sabe que sou fã da Marília Bernardo isso não é nenhuma novidade. Mas ao ponto de compará-la ao meu mais nobre escritor... ai já é demais? Nem pensar. Diante de seu último texto, meu amigo Rafael chegou a comentar que sua forma de escrever lembrava o mestre Douglas Adams. Neste novo texto, eu mesmo fiz as analogias. Achei de uma sutiliza tão brilhante que me fez lembrar a divindade, José Saramago. Chega de bajulação, ela é ainda maior que isso. Leiam, vale a pena, vale a galinha, vale a granja toda. Só tome cuidado, você poderá ser diagnosticado no fim do texto.




 Ouvi certa vez um cristão dizendo que a vida terrena era como uma sala de espera. Eis que não tive oportunidade melhor para destilar a minha ironia.

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            Suponha que há um novo Médico na cidade. Muito se ouviu dizer sobre Ele, sobre Suas curas esplêndidas e sobre o quão bom Ele é. Muitos dizem falar com Ele diariamente e um número maior ainda de pessoas acredita em tal coisa, ainda que ninguém de fato pareça sequer ter visto tal Médico pessoalmente. As pessoas que alegaram ter se consultado com o Médico saem apregoando por aí os feitos Dele, dando supostos testemunhos e relatando "milagres"; ainda que tais eventos sejam comuns no universo da Medicina. Porém, sempre atribuem o termo milagre ao que desconhecem e mais intrigante ainda é o desinteresse profundo em fazer tal coisa. Falar do que não se sabe ou do que não se tem evidência são hábitos terríveis de quem se consulta com esse Médico. Mas isso não parece incomodá-las e a certeza de que agora elas estão sadias é confortável demais para fazê-las mudarem de opinião; afinal, elas só reconhecem apenas um único Médico, que prometeu saúde eterna a todas elas. O fato de não haver garantia concreta disso não é evidente para a maioria. Não há a menor prova sequer de que tal Médico exista ou, que se existe, seja bom, ou ainda, que se importe com seus pacientes.

            No mais, quem se consultou com o Médico desenvolveu a terrível mania de diagnosticar doenças nas outras pessoas e a dizer que elas deveriam se consultar com tal Médico. Depois que alguém teve a ideia de se consultar com esse Médico e, pior, de achar que todos deveriam fazer o mesmo, a coisa ficou realmente feia naquela cidade. O Médico, por sinal, dizem que tem uma série de requisições para que alguém seja Seu paciente. Quase que mandamentos. Mas o comodismo, a inércia, de quem procura tais consultas não permite indagações.

            Nada de questionamentos. Funciona melhor assim.

            Doente ou não, havia gente lotando o consultório do Médico, procurando por verdades e conforto. Havia tantos profissionais certificados de sua eficácia à disposição, naquela mesma cidade, mas eles foram postos de lado porque havia uma histeria coletiva de que apenas aquele Médico era quem verdadeiramente curava.

            As Clínicas em que o Médico supostamente atendia eram ricas agora. Havia uma imensa e inegável procura. Muitos Enfermeiros executavam procedimentos alegando estar fazendo o que o Médico mandara. E, se algo saísse errado, era "porque o Médico quis". Os pacientes não questionavam se os Enfermeiros eram capacitados, simplesmente confiavam. A tal da fé. E se fosse a Enfermeira Chefe quem estivesse fazendo o procedimento, aí é que não havia a menor indagação mesmo. Diziam que ela era a mãe do Médico e que O ajudava quando Ele estava ocupado. Assim, ela O ajudava sempre.

            Sentadas nos sofás e cadeiras da sala de espera, as pessoas aguardavam pacientemente ou não a sua vez. Alguns se achavam mais dignos do que os outros de serem atendidos. Outros tinham certeza de que o propósito do Médico era o de curá-los, exclusivamente, como se fossem os únicos realmente necessitados da cura. Quem se consultava com o Médico também se achava mais sadio do que quem não o fez. Havia também a crença de que as consultas deveriam ser regulares, semanais.

            Que estivessem doentes ou não.

            Fazia-se um certo silêncio na sala de espera, onde todos acreditavam verdadeiramente de que seriam atendidos. A maioria lia panfletos e livros sobre o Médico, o que era uma soma considerável de leituras. No silêncio, alguns procuravam por algum sinal de que o Médico estivesse mesmo lá dentro da sala Dele. Faziam um esforço e nada ouviam. Ninguém entrava ou saía do consultório. Uns poucos, com o passar das horas, desistiam de ficar ali porque chegavam à óbvia conclusão de que foram enganados.

            Não havia Médico algum.
           
            Não havia nada ali.

            Nada.

            Nada mesmo.

            Nenhuma explicação para a sua doença, se afinal doenças existem mesmo, se é possível curá-las, quais são curáveis, como se tratar, por que as doenças existem, por que pessoas boas adoecem, se só é saudável quem vai ao Médico e uma porção de perguntas importantes que são diariamente caladas porque incomoda ainda não ter as respostas. O que definitivamente não significa que se deve calá-las.

            Perguntas são importantes.
           
            A partir delas, algumas pessoas, ainda que poucas, puderam notar que algo estava estranho na sala de espera e em tudo o que se referia ao Médico. Tudo começou com pequenas perguntas mentalmente feitas e uma leve desconfiança de que algo estava errado, o que desencadeou a importante ação de deixar a Clínica e de procurar por profissionais eficazes, por respostas satisfatórias, por evidências. Por algo não somente sensível, mas por algo racional.

            O Médico não era nenhum dos dois.

            Para os que perceberam que foram enganados, foi um bom negócio ter concluído que o Médico não existe. Boa parte deles também concluíram que nunca estiveram doentes, e os que ainda se sentiam assim, procuraram por real ajuda.
           
            Para os que continuam na sala de espera, acreditando cegamente nos panfletos da Clínica, no que se ouviu dizer, e sequer questionando a existência do Médico e também não pretendendo fazer tal coisa, há um evidente diagnóstico.

            Ignorância.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Exemplo das questões para as avaliações

Galera, desde que a Filosofia foi implantada no Ensino Médio, os profissionais desta área se preocuparam em como avaliar seus alunos. Que tipo de questões cobrar em uma prova de Filosofia? Como deveriam ser as questões de cunho objetivo? Como seria uma questão filosófica que pudesse ser inserida em um vestibular? Bem, quanto ao debate deste tema deixo-o para os pedagogos. O que sei porém é que devo aplicar em minhas provas o que acho conveniente para a aprendizagem dos meus alunos. E por falar em alunos, os novatos se intimidam com o nível e tipo das questões na prova. Atendendo aos pedidos dos mesmos, seguem alguns exemplos de questões que poderão vir a ser cobradas nas avaliações. Sucesso e Estudo galera!!!


Exemplo 1


 Leia a frase e a seguir responda corretamente o que se pede:

“Zeus ocupa o trono do universo. Agora o mundo está ordenado. Os deuses disputaram entre si, alguns triunfaram. Tudo o que havia de ruim no céu etéreo foi expulso, ou para a prisão do Tártaro ou para a Terra, entre os mortais. E os homens, o que acontece com eles? Quem são eles?”
(VERNANT, Jean-Pierre. O universo, os deuses, os homens. Trad. de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p. 56.)
O texto acima é parte de uma narrativa mítica. Considerando que o mito pode ser uma forma de conhecimento, conceitue mito e explique por que não podemos identificar o mito como sendo sinônimo de mentira.

Exemplo 2
O grande impasse entre heteronomia e autonomia ocorre na adolescência, período de contradições em que, abandonando as características infantis, o indivíduo ainda não assumiu as obrigações e as responsabilidades da vida adulta. O psicólogo suíço e filósofo Jean Piaget elaborou a teoria conhecida como psicologia genética, base para a aplicação de fecundas práticas pedagógicas. Segundo essa teoria, não há inteligência inata: a gênese da razão, da afetividade e da moral avança progressivamente em estágios sucessivos nos quais a criança organiza o pensamento e o julgamento. Por isso sua teoria e as que dela derivam são chamadas construtivistas, já que o saber é construído pela criança, e não imposto de fora. Com base nos seus estudos, escolha um dos quatro estágios do desenvolvimento cognitivo elaborados por Piaget, os quais demonstram a formação e desenvolvimento do caráter ético e moral do sujeito e disserte sobre o mesmo.


Exemplo 3
Analise o texto a seguir e disserte sobre o tema proposto

“Vivemos num mundo que valoriza as aplicações imediatas do conhecimento. O senso comum aplaude a pesquisa científica que visa à cura do câncer ou da aids; a matemática no ensino médio seria importante por “cair” no vestibular; a formação técnica do advogado, do engenheiro, do fisioterapeuta prepara para o exercício dessas profissões. Diante disso, não é raro que alguém indague: ‘Para que estudar filosofia se não vou precisar dela na minha vida profissional?’”
Tema: A importância do pensar em uma sociedade alienada.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Se eu fosse eu.

Galera, comentei esta semana na primeira aula de Filosofia para inúmeras pessoas o quanto gosto deste texto da Clarisse Lispector. É uma pena que as redes sociais tenham, de certo modo, banalizado a figura desta ilustre escritora. Refletindo sobre as questões existenciais, nos deparamos em sala de aula que pouco conhecemos daquilo que julgamos realmente conhecer. Abaixo, o texto:

Quando eu não sei onde guardei um papel importante e a procura revela-se inútil, pergunto-me: se eu fosse eu e tivesse um papel importante para guardar, que lugar escolheria? Às vezes dá certo. Mas muitas vezes fico tão pressionada pela frase "se eu fosse eu", que a procura do papel se torna secundária, e começo a pensar, diria melhor SENTIR. 

E não me sinto bem. Experimente: se você fosse você, como seria e o que faria? Logo de início se sente um constrangimento: a mentira em que nos acomodamos acabou de ser movida do lugar onde se acomodara. No entanto já li biografias de pessoas que de repente passavam a ser elas mesmas e mudavam inteiramente de vida. 

Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua, porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. 

Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar. Acho por exemplo, que por um certo motivo eu terminaria presa na cadeia. E se eu fosse eu daria tudo que é meu e confiaria o futuro ao futuro. 

"Se eu fosse eu" parece representar o nosso maior perigo de viver, parece a entrada nova no desconhecido. 

No entanto tenho a intuição de que, passadas as primeiras chamadas loucuras da festa que seria, teriamos enfim a experiência do mundo. Bem sei, experimentaríamos emfim em pleno a dor do mundo. E a nossa dor aquela que aprendemos a não sentir. Mas também seríamos por vezes tomados de um êxtase de alegria pura e legítima que mal posso adivinhar. Não, acho que já estou de algum modo adivinhando, porque me senti sorrindo e também senti uma espécie de pudor que se tem diante do que é grande demais.


Texto extraído do livro A Descoberta do Mundo de Clarisse Lispector. Ed Rocco, pg. 156

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Monxorós!


Marília Bernardo Fernandes é o que eu costumo identificar como uma aluna perfeita. Atenciosa, respeitadora, legal, inteligente e simpática. É sempre bom conversar com ela nos intervalos da vida. Aprendo muito, muito mesmo com essa menina. Recentemente veio me mostrar um texto sobre um determinado povo. Bem, era tudo o que eu queria escrever. Abaixo segue o texto, é incrível e hilário. Já vou avisando: qualquer semelhança é mera coincidência ou qualquer coincidência é mera semelhança!

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Esta é uma pequena história cujo caráter ficcional é meramente ilustrativo, uma vez que a seguinte narração passaria despercebidamente pela mais pífia realidade. Um aglomerado qualquer de seres humanos, em um nível desprezível de socialização e esclarecimento, pode apresentar traços fiéis aos moradores de Moseley.

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Era uma cidade pequena, de fato. Atingia sempre baixas temperaturas e isso era motivo de grande reclamação entre seus moradores, incomodados com a pouca surpresa que o clima proporcionava. Minúscula, poderia-se dizer sem medo de eufemismo, ainda que quisesse parecer grande coisa perante outras cidades. Moseley localizava-se ao norte daquele Imenso País Gelado. Sua política era fortemente enraizada em tradições religiosas, fomentadas por uma família específica, que conduzia o poder durante gerações seguidas. Era até natural tê-los no poder e nada era feito quanto a isso, diante da aparente normalidade em se ter a democracia burlada, ainda que legalmente. Paradoxal, deveras, mas nada que interferisse no longo reinado da família Rose. Reinado - foi mesmo essa a palavra usada? Não que o fosse, mas se assemelhava, o que era notado por aqueles que tinham uma perspicácia aguçada e tinham de tolerar, por falta de meios, tal realidade.
A população, em sua maioria, era de renda mediana, sendo esta baseada no turismo e venda de madeira, dada a densa floresta que a rodeava. No inverno, famílias abastadas, assim como a Rose, se mudavam para Moseley e por lá permaneciam durante o longo período do inverno, que coincidia com os meses de férias. Um local apreciado especialmente pelos mais jovens, que sentem um prazer peculiar em exibir suas posses: as roupas de frio, todas de famosas marcas de material esportivo, eram como uma espécie de farda obrigatória. Qualquer coisa diferente era até mesmo vista com desprezo e um sentimento de inferioridade era instaurado em quem ousasse ser original. Carrinhos de neve e equipamentos de esqui eram mostrados como objetos de glória, ostentando um valor imaginariamente grande, mas que mal sabem tais mentes tão vazias que nada daquilo havia sido fruto de seu próprio trabalho ou mesmo imaginavam se seus pais obtinham toda aquela abastança por meios honestos.
Outra coisa peculiar em Moseley era a ignorância de seu povo. Era até compreensível em camadas mais pobres, exploradas em épocas de campanhas políticas. Afinal, quanto mais carente, menos seletivo é o povo, uma vez que a necessidade urge e qualquer condição diferente da anterior é aceitável.
Contudo, a ignorância instalava-se até mesmo entre os ditos esclarecidos.
Uma espécie de música dominava, dentre todas as preferências musicais existentes. Um antigo estilo musical típico do norte daquele Imenso País Gelado havia sido deturpado e vendido como mercadoria, se passando por cultura. Continuavam a chamar de Fohò, mas não era o verdadeiro Fohò, como dançavam e cantavam os que pertenciam às gerações passadas. As músicas atuais tratavam de futilidades e eram especialmente ouvidas durante o inverno, pela população jovem que esquiava em Moseley. Possuir boas motos de neve, ter um específico equipamento de esqui e beber uma certa marca de whisky eram comportamentos defendidos. Não porque o frio fosse excessivo e beber whisky fosse necessário, até porque não era o de qualquer marca. Isso tudo porque grandes fábricas de bebidas patrocinavam os novos “músicos” do Fohò e, pelo dinheiro, a “música” virava uma grande propaganda, absorvida sem controle pela população que, sem senso crítico, seguia a moda pela moda na desprezível Moseley.
A cultura nunca foi um ponto forte de Moseley, embora grandes festivais sejam feitos. Essa cidade é mesmo cheia de paradoxos. Mas esse pode ser facilmente explicado: os festivais são feitos para que a população esqueça seus problemas. Sim, essa é a grande e essencial função do divertimento: aliviar. Um riso e uma boa música aliviam a labuta de cada dia. Mas eis que os festivais de Moseley não aliviam – sedam. Os bons músicos e poetas de Moseley terminam esquecidos ou sufocados, porque o patrocínio e bons pagamentos só chegam aos músicos do novo Fohò.
Boas somas de dinheiro chegam também àqueles que promovem a caça de ursos selvagens. Chamam aquilo de Ursada. Praticam a Ursada eventualmente, numa grande festa regada a Fohò e bebidas, obviamente, pois ambos estão relacionados. Laçam os ursos e fazem todo tipo de prática irracional sob o argumento de que a Ursada é um esporte. É de fato uma realização que não seria permitida na presença do discernimento, mas isto falta aos moradores de Moseley. As autoridades nada fazem quanto à Ursada, pois elas mesmas participam e promovem. Se não o fazem, fingem que não estão vendo qualquer atitude ilegal, pois uma outra família bastante influente em Moseley conduz anualmente a Ursada, os Porchini. Esta família domina vários ramos do comércio, inclusive o das famigeradas motos de neve.
Moseley nada mais é do que uma grande teia movida à troca de favores.
No mais, a população não é amante da leitura e as boas obras terminam empoeiradas nas prateleiras. Suprir hábitos verdadeiramente culturais é bastante caro em Moseley: preços abusivos são pedidos pelos livros, que já não são de uma boa variedade. Poucos os compram e viver da Literatura nunca foi um grande negócio naquele Imenso País Gelado.
Nessa cidade, nem mesmo a fé escapa do exibicionismo. Ter uma religião é preciso, mas não somente uma: tem que ser justamente aquela cuja maioria participa, da religião Caótica. É importante ressaltar que tal igreja e a política local andam intimamente entrelaçados. Mas não deve ser mais nada demais. Certamente, a prefeita de Moseley anda bastante interessada em doar dinheiro aos mais pobres. O clero local, obviamente. Não há muitos pobres em Moseley que não sejam do clero local.
Uma recente construção de Moseley parece estar atraindo muitas pessoas: é a nova estação de esqui. Lá, muitos passeiam e ostentam seu luxo aparente com gestos mesquinhos e atitudes mais vazias ainda. Há quem vá pelo simples prazer de passear e apreciar a companhia ou a paisagem, mas estes são poucos.
A nova estação de esqui é uma vitrine humana, a melhor de todas, pois principalmente lá a população de Moseley garante que todos os outros saibam que padrão de vida ela possui exatamente.
Sair de Moseley é, verdadeiramente, um grande feito. Quem viaja para outros países faz questão de isto expor, não porque o turismo seja uma atividade interessante, mas porque é preciso esclarecer de que a renda é mais do que suficiente para poder abarcar as despesas que as passagens caras propiciam. Os mais jovens - como sempre os mais jovens – são, principalmente, aqueles que adoram alardear suas viagens. Em contato com outras culturas, eles sequer exaltam suas raízes. Não. Eles escondem o pouco de cultura que puderam absorver de sua terra natal e voltam para ela com a cultura do país visitado, do qual se sabe tudo. Escreve-se muito bem o idioma estrangeiro e todos os hábitos de fora são minuciosamente copiados, ainda que os principais países visitados sejam de clima tropical. Há, inclusive, quem traga do exterior algumas pranchas de surfe e maiôs de banho. Como se fosse possível usar tais coisas nas condições naturais de Moseley. É de conhecimento geral que é um absurdo, mas dizer o que se tem, ou melhor ainda, exibir, continua sendo o passatempo preferido daqueles que moram em Moseley.
Essa cidade é mesmo surpreendente.

domingo, 21 de agosto de 2011

Evolução da Escrita (?) por: Micael Martins


Os vestígios mais antigos da escrita são originários da região baixa da antiga Mesopotâmia, e datam de mais 5500 anos. Por volta do século VI a.C. os chineses começaram a produzir um papel de seda branco próprio para pintura e para escrita. A notação era um processo bem simples: tinta era colocada num pedaço de papel.

Intrigante é constatar que hoje, milhares de anos depois, continuamos “colocando tinta no papel”. Temos à nossa disposição computadores pessoais, portáteis e até “de mão” capazes de armazenar mais livros do que qualquer biblioteca pessoal. Por que não evoluímos nesse aspecto?

A produção de livros impressos, tal qual é feita atualmente (e assim o é há muito tempo) envolve imensos gastos, inclusive inquantificáveis em valor de dinheiro, como a degradação ambiental. Desde a extração de árvores, transporte, processamento da celulose, fabricação do papel, edição e impressão do livro, sua distribuição pelo mundo e venda, temos um longo caminho de gastos desnecessários. Com a produção e venda eletrônica de livros, tudo isso será evitado.

Antes de mais argumentos, alguém poderia já dizer que não aprecia ler no computador, pois sua vista dói, sua cabeça dói, sua coluna dói… creio que ao acessar o MSN e sites de entretenimento alguma dose de morfina vem do além, pois gastamos horas ininterruptas com eles ao computador, e sem dor alguma! Além do mais, já há no mercado um livro eletrônico ergonometricamente pensado. É leve, pequeno e sua tela não prejudica a visão.

Quanto à movimentação econômica que a industria do livro físico provoca, seus empregos… isso tudo poderia ser perfeitamente revertido para a industria do livro eletrônico, baratiando-o absurdamente. Você consegue imaginar o gasto para aquisição e manutenção de um biblioteca universitária? E todo aquele espaço físico, funcionários, problemas, roubos e danos?

E se comessássemos a imprimir todas as apostilas, manuais, documentos, enfim, tudo o que você costuma consultar no computador? Soa estúpido? Pois é nutrindo-se dessa estupidez que continua-se a imprimir e imprimir livros, revistas e jornais. Nunca na história da humanidade se produziu tanto papel quanto hoje. Alguém, por favor, me aponte o que uma revista ou jornal impresso pode conter e que não encontramos na internet, inclusive de diversas fontes e até com mais riqueza de conteúdo.

Com o planejamento econômico correto, o livro eletrônico estaria ao alcance de todos. Que tal portar milhares de livros num dispositivo de 290g?

Há quem me venha falar dos problemas quanto à aquisição dos livros, evidenciando que cópias piratas se disseminariam, prejudicando o retorno financeiro do autor. Quando à isso, não nos falta inteligência e recursos para criar sistemas com “serial keys” que permitam que utilize o livro apenas quem o comprou, sem compartilhamento para outros dispositivos.

E não se trata apenas de livros. Em quase todos os lugares, ao invés de simplesmente inserirmos os dados em algum sistema online, temos que resolver tudo com pepel. São solicitações , requisições , cadastros, registros, tudo impresso ou escrito em papel, nos fazendo perder tempo, dinheiro e árvores!

As vantagens do livro eletrônico sobre o impresso são evidentes. O problema da transição está apenas nas pessoas, no próprio medo de mudar um hábito e de encarar as novos desafios logísticos que essa transição traria para a economia.

Micael Martins

sexta-feira, 1 de julho de 2011

A Revolução dos Bichos Ilustrada, ou seria Chargeada?





João Carlos é um exímio desenhista. Nada melhor do que fazer um trabalho escolar com o dom que se tem. João resolveu ilustrar por charges a sua visão sobre o livro do George Orwell.

Ps. Só os fortes entenderão as charges do JC.

A Revolução Cantada


Não é de admirar a genialidade de Lásaro Alves. Porém, pela minúcia e organização em que seu texto foi criado, fiquei embasbacado e muito feliz por ter a oportunidade de ser professor de um adolescente como ele. Lásaro resolveu desenvolver "A Revolução dos Bichos" através de uma música que o mesmo criou. O texto é grande e isso faz dele um texto ainda mais especial. Nunca vi um livro ser tão bem resumido como este foi.

A revolução cantada

Na Granja Solar, um próspero “lar”

Próxima a vila de Willingdon

Os bichos de uma Inglaterra tão rica e moderna

Estão a se inspirar

Nas palavras do sábio porco Major

Que ao descrever seus desejos

Suas idéias de revolução

Seu sonho, sua visão

De que um dia os bichos ingleses

Poderiam ser um dia como aqueles

Aqueles que os dominam há tanto tempo

Que os forçam a trabalhar sem condições

E os “pagam” com pouca ração

E no coração dos bichos

As idéias de liberdade

Os sonhos de uma vida de verdade

Em que todos sustentam esperança

A vida boa seria uma realidade

Esperaram o dia sem agrado

Divididos pela ideia da revolta

De poder mandar no mundo a sua volta

E no aparecer da oportunidade perfeita

Quando Jones o fazendeiro

Bêbado, moribundo e esquecido

Dá a chance de se libertarem

Com alguma algazarra o velho é vencido

A granja solar agora era realmente um lar

E mesmo não tendo o velho Major

Que fora pela morte levado

A fazenda agora dos bichos

Era um marco de revolução inglesa

Espalhando os ideais

Agora tão leais

As cantigas as leis

Agra eles eram os reis

Os animais liderados pelos porcos

A população pensante animal

Mas que não produzia

Nem tanto quanto cavalos

Bois ou galos

Mas que organizavam e ensinavam

E a massa aprovava

Os lideres que sabiam tanto quanto o humano

Que um dia os mandavam

E que durante todos aqueles anos

Tiveram como aprender

A ler, criar, construir e escrever

Hoje comandam a Granja dos Bichos

Coisa que ninguém podia crer

Humanos tão descrentes

Agora passavam a ver

Que aqueles animais

Depuseram um colega

Implantaram suas regras

E espalham um grito

Um grito de mudança

Que toda a vizinhança

De bichos, de animais

Começaram a mudar

Sem poder esperar mais

E o novo líder

O porco Bola-de-neve

Um animal sábio e fiel

Com intenção de igualdade

Criou as regras, as regras da liberdade:

Primeiro: qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimiga.

Segundo: Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.

Terceiro: Nenhum animal usará roupas.

Quarto: Nenhum animal dormirá em cama.

Quinto: Nenhum animal beberá álcool.

Sexto: Nenhum animal matará outro animal.

Sétimo: Todos os animais são iguais.

Assim estipuladas, as regras

De que todos os animais

São iguais

E agora podiam viver em paz

Cada qual com sua tarefa

Sua missão, sua meta

O cavalo Sansão

Fiel e trabalhador

Assim como muitos dos bichos

Não muito entendia

Somente sabia

Que para ajudar

Sempre mais ele tinha que trabalhar

E muitos outros o eqüino inspirou

Trabalhando para si mesmos

Não tinha como não produzirem

Tudo era aproveitado e organizado

Uma fazenda fora do comum

Os homens não acreditavam

Como bichos faziam algo

Que todos eles tardavam

Liderados pelos sábios animais

Justos e leais

Prosperaram como nunca mais

Todos os humanos ficaram para trás.

E com tanta abundancia

Controle e festança

Logo a população cresceu

E o esperto Napoleão

Seu plano arquitetou

A pequena ninhada das cadelas

Ele tomou e começou a treinar

Máquinas de morte ele estava a fazer

E ninguém podia perceber

Certo dia o fazendeiro Jones

Querendo sua desforra

Apareceu na sua porta

Os animais já esperavam

A luta começaram

Com grande esforço batalharam

E foram recompensados

Arduamente derrotaram

O inimigo humano que odiavam

Novamente triunfaram e mostraram seu poder

Todos os humanos passaram a os temer

Com tanta prosperidade

A granja passou a evoluir

E os planos de Bola-de-neve

A maioria passou a compreender

Porem a égua Mimosa

Acostumada ao bom viver

Cansada de trabalhar sem regalia

A granja abandonou

E para os humanos ela voltou

Sem se importar com a traição

O sábio Bola-de-neve

De sua sabedoria usou

O moinho se pensou

Era a solução

Produção, conforto, diversão

Tudo isso era muito bom

A grande massa aprovou

Porém o vil Napoleão

Colocou seu plano em ação

Dividiu a granja em opiniões

Com a ajuda das ovelhas berrantes.

Discordava de seu colega

Dizia que o moinho não ia dar certo

Mesmo sabendo que não era verdade

Não compartilhava as idéias de liberdade

Depois de muita discussão

O porco gordo e egoísta

Pôs suas armas à vista

Os cães que havia treinado

Agora eram matadores com agrado

Puseram o pobre líder pra correr

E os bichos começaram a os temer.

Tomando agora o poder

Napoleão, ditador pior não poderia ter

Iniciou seu plano há muito arquitetado

E com medo e palavras falsas controlou a bicharada

Que não era tão sabida e estudada

E por tanto não podiam fazer nada

Passaram a trabalhar mais

Porque o inescrupuloso ditador

Resolveu montar a maquina e que ele tanto tentou impedir de criar

E todos trabalhando forçado

Com a ração cortada

Com privilégios dados aos porcos

Mesmo assim muitos continuavam

Talvez por falta de inteligência

Ou por inspiração nos atos de Sansão

Que ainda trabalhava incansável

Sempre inabalável passou a se questionar

Se os atos do porco Napoleão

Eram os mesmos que o velho Major ia aprovar

E com sua credibilidade na granja

A liderança do ditador passou a ameaçar

Mas com uma lábia afiada o porco soube se virar

Inventou mil e uma mentiras e a leis passou a mudar

Ninguém podia contestar

Já que os únicos que sabiam ler eram

A velha égua Quitéra e o burro

E passou ainda a contar

Com a ajuda do habilidoso Garganta

Que muito bem sabia articular

Discursos e convencimentos eram seu forte

Maleava até os animais de grande porte.

Assim os bichos passaram para outra era

Uma era de infelicidade

Trabalhar, comer, dormir

Essa era sua realidade

Diversão nem pesar, só podiam trabalhar

Tão infelizes quanto com Jones

Mas mal podiam se lembrar

O meticuloso Napoleão mudara tudo

História, fatos, leis

Agora não eram mais reis

Eram os porcos

Que cada vez mais faziam nada e recebiam mais.

Com o moinho pronto e exaustos de tanto laborar

Porém a fraca fundação

Num ataque da granja vizinha que a destruiu

O esforço que todos tiveram

No chão caiu

O pior mal que já se viu.

E usando de sua esperteza

O porco ditador pôs a culpa no honesto

Bola-de-neve

Que agora era culpado por tudo de errado.

Novamente os sofridos animais voltaram a labutar

Sempre mais arduamente e com menos ração

Trabalhavam sem condição

Ainda fora proibida a canção

Aquela que um dia instigou a revolução.

No inverno gélido

Sem colheita sem comida

Puderam dizer que realmente

Pioraram de vida

Mas o tempo passa

Mais uma vez o moinho se apronta

E agora protegidos e reforçados

Ele permanece de pé

Só que o esforço não pára

Continuam a trabalhar

Sempre com a produção alta

A ração escassa mesmo com abundância

Tudo pela ganância

Do porco Napoleão, animal sem coração

Precisando de produtos

Para outro moinho produzir

Iniciou com os humanos

Uma amizade que pior ainda está por vir

Comercializando o excesso da granja

Pôde outro moinho montar

Só que a idade dos bichos só tendia a aumentar

E a aposentadoria, promessa tão aguardada

Deixou de ser verdade

Não seria realizada

E o velho Sansão

Já não se agüentando de cansaço

Continuava a se esforçar
Sempre achando que tinha que ajudar.

E o tempo continua passando

A prosperidade da granja aumenta.

Um golpe na dignidade dos bichos e dado

O maléfico porco muda o nome da Granja

Para Granja Solar novamente

E os bichos se revoltam secretamente

Mas mais uma o ditador os controlou

Botou seus cães para matar

E o medo passou a se instaurar.

Os animais sofrem outro golpe

Quando são atacados novamente pelos humanos de Jones

Uma batalha perigosa onde o velho Sansão sai ferido

Alvejado pelos tiros de humanos ainda consegue trazer a vitória

Mas ninguém se importa,

Pois o que um dia foi uma cavalo aprumado

Agora está despedaçado

E o vil ditador o manda pro matadouro

Onde será transformado em ração

Um golpe no coração

Mas ninguém sabe

Pois ninguém sabe ler e não podiam ver que estavam sendo enganados

O poderoso cavalo fora levado achando que ia ser curado

Somente a Quitéra que já velha ainda pode enxergar

Aonde a carroça o iria levar.

O tempo passa mais ainda

O mesmo esforço, mais moinhos, mais produção e ainda sem satisfação

Somente os porcos que passaram a regozijar da vida boa que passaram a levar

Na casa dos humanos foram morar

Nas camas dormiam

Álcool consumiam

E aprenderam a andar sobre duas patas

Tornaram-se aquilo que um dia mais odiaram.

Os animais, coitados

Nada podiam fazer, não sabiam ler

Manipulados podiam ser

E de nada se lembravam,

Pois foram ludibriados

O ardiloso Garganta as leis alterou

E ninguém viu

Ninguém reclamou

E assim os dias se passaram

Bons para os porcos

Péssimos para o resto

Muitos morreram exaustos na velhice

Muitos nasceram

E depois de tanto tempo já se acostumaram

Acostumaram a viver na mediocridade

Que agora era sua única realidade

Humanos passaram a freqüentar sua granja

Enquanto o porco sua abundancia esbanja

Jantares, bebedeiras festas

Tudo isso os porcos aproveitavam

E os animais sofriam

Mas nem se davam conta disso.

Os costumes, tradições e os símbolos

Todos acabaram enfim

Os porcos se tornaram tão humanos

Que certa noite

Num jantar com os vizinhos

Aqueles mesmos que os atacaram

Uma gritaria, uma confusão

Começou entre os porcos e humanos

Os animais olhavam para os dois

E não sabiam dizer quem era o porco

Quem era o humano.

Lásaro Alves dos Santos